Sobreviver, entretanto, foi apenas o primeiro dos
degraus. Depois do estupro, veio o medo de ser responsabilizada pelo que
aconteceu. O alento para a jovem, entretanto, tem vindo de todas as partes do
mundo e do país, mediado pelas redes sociais. Viu que muitas mulheres que ela
nunca conheceu mostraram seu apoio. E elas reforçaram: a culpa nunca é da
vítima, e sim do agressor.
— Eu queria agradecer a essas pessoas, porque eu não
esperava. Eu pensei que eu seria realmente julgada. Pensei que eu seria
apedrejada. A maioria delas (das mulheres) diz: ‘tô contigo’ — diz, abrindo,
finalmente, um sorriso.
Ela agradeceu o apoio nas redes sociais: “ Todas podemos um dia passar por
isso. Não, não dói o útero e sim a alma por existirem pessoas cruéis impunes !!
Obrigada pelo apoio", postou.
Em muitos momentos, seus pais parecem mais cientes da gravidade do que
ocorreu do que a própria jovem. O pai, de 70 anos, chora com facilidade. Com a
ajuda de muletas, tem dificuldade para se locomover, depois de sofrer dois AVCs.
A menina temeu pela saúde dele quando o vídeo em que estupradores zombam da
vítima chegou ao conhecimento da família. A primeira a receber foi a avó da
menina.
— O que fizeram com a minha filha foi horrível. Ninguém espera criar uma
menina para um dia acontecer isso — emocionou-se.
No dia seguinte ao estupro, ela chegou em casa, em um
condomínio de um bairro de classe média da Zona Oeste do Rio, vestindo roupas de
homem, de um amigo que a ajudou, ainda dopada, a sair da favela onde o crime
ocorrera. Já em casa, entrou no chuveiro e limpou o sangue que ainda corria. E
depois foi dormir. Decidiu não contar o que tinha sofrido para ninguém. Se não
fosse pelo vídeo divulgado, o segredo estaria guardado até hoje:
— Quando apareceu na internet (as imagens), eu estava em casa. Aí, a advogada
me chamou para ir na delegacia e no IML. Ela disse que estava de carro aqui
embaixo. Tomei banho, botei a roupa e desci. Se não fosse por ela até hoje acho
que não faria nada.
‘PODERIA TER SIDO PIOR’, DIZ MÃE DA VÍTIMA
Já a mãe, uma pedagoga de 46 anos, diz que está “mais ou
menos”. Com muito medo, ela teme andar na rua, com ou sem a filha. Ela é avó e
uma espécie de mãe pro menino de três anos que a filha deu à luz aos 13 anos. O
pai dele, morador de uma comunidade da Zona Norte e quatro anos mais velho que a
garota, nunca quis registrar o menino. Era ligado ao tráfico e morreu baleado no
ano passado durante um confronto. Agora, além de dar colo ao neto, a pedagoga dá
também à filha, junto de uma frase de consolo:
— Poderia ter sido pior.
As poucas saídas da jovem têm sido para ir ao hospital ou à delegacia. Ontem
à tarde, foi dia de novo depoimento na Delegacia de Repressão aos Crimes de
Informática (DRCI), que investiga o caso. A menina foi ao quarto trocar de
roupa, voltou para a sala vestida com blusa e saião. No almoço apressado, antes
que o carro de polícia chegasse, chegou à sala de estar, com passinhos miúdos,
seu filho de 3 anos, ainda sonolento. A adolescente colocou o pequeno no colo,
perguntou se ele queria umas garfadas de arroz com feijão. Ele não respondeu, e
dormiu nos seus braços.
Mais quieto que o usual, segundo os pais da moça, o menino demonstra sentir,
na sua intuição infantil, que algo afetou a casa.
FAMÍLIA PENSA EM DEIXAR O RIO
Desde o crime, a já difícil rotina da casa mudou. Jornalistas não param de
ligar — enquanto a reportagem do GLOBO esteve no local, foram três telefonemas.
Anteontem, um grupo de amigas foi visitar a garota. Para ver a menina
pessoalmente, por enquanto, só visitando. A casa, num condomínio com academia e
área de lazer que deveria ser um “lar” para a família desde que se mudaram, há
três anos, tornou-se nos últimos dias uma espécie de esconderijo.
A jovem, que já não ia à escola pública em que estuda
desde o início do ano, agora nem pensa em sair de casa, por medo. Também não
sabe ao certo como quer que seja seu futuro. Quer casar, ter mais filhos. Se
depender dos pais, no entanto, o recomeço será longe. Eles querem sair da cidade
e evitar que a jovem lembre a todo momento do que enfrentou. Ainda não
escolheram o destino. Por enquanto, na matemática da dor, a certeza é que trinta
e três homens, incitados pelo machismo, foram capazes de, ao violentar o corpo
de uma adolescente, dilacerar a vida dela e de mais três pessoas.
O Globo
o.